sexta-feira, 17 de julho de 2026

Era uma vez os exames nacionais em 2026

 Ressuscitei este espaço, agora que terminou o prazo de conclusão para a classificação dos exames nacionais (o quarto prazo). Este foi o meu ano de estreia enquanto classificador de exames nacionais do Ensino Secundário. Afinal o que se passou?

Contexto

Até 2025, os exames nacionais eram realizados em papel. Como é sabido, cada aluno recebia um caderno com o enunciado da prova, e recebia também uma folha de prova com umas linhas laranjas ou castanhas (uma folha A3 dobrada ao meio, para se converter em quatro páginas A4), onde escrevia a sua identificação e a da escola, a disciplina e o código, o número de páginas utilizadas, etc.  Nessa folha, escrevia todas as respostas, tendo e as identificar claramente. Se lhe faltasse espaço, pedia aos vigilantes outra folha de resposta.

Concluída a prova, o secretariado de exames recolhia todos os exemplares de exames, que iam parar à GNR/PSP, que por sua vez os ia distribuir ao Agrupamento Regional de exames. Dali a um dia ou dois, os professores classificadores iam levantá-los à sede do Agrupamento Regional de exames, fazendo a sua filinha e aproveitando para reencontrar ex-colegas de outras escolas: "Então, também te calhou classificar exames? Eh, eh... Cada vez estás mais velha nova!". O número de provas distribuídas a cada classificador, não sendo exagerado, era substancial, mas o prazo atribuído tornava a tarefa exequível.

No dia e hora marcada para a entrega das provas, lá os professores se encontravam no Agrupamento Regional de exames, faziam a fila de novo e aproveitavam para trocar umas impressões sobre o trabalho que haviam tido: "Eu só acabei ontem à noite... havia ali dois alunos que parecia que escreviam com duas canetas ao mesmo tempo, era difícil entender a caligrafia deles... Então e um iluminado que escreveu «Memorial do Com Vento» em vez de «Memorial do Convento»?!". Tudo era conferido e no fim de tudo cada um ia à sua vida.

No dia de afixação das pautas, os alunos iam avidamente consultar as notas e conversar com o professor da disciplina para ver se não valeria a pena consultar a prova, se a nota não estivesse de acordo com as expectativas.

Assim se fez durante décadas, nunca houve problemas com isto e nunca ninguém se queixou.


E em 2026 chegou a mudança

Esquecendo a experiência com o exame de Filosofia de 2025, a verdadeira mudança chegou em 2026. Vamos passo por passo, para perceber o que mudou e, se possível, porque é que mudou.

Os alunos continuaram a realizar o exame em papel. Tal como dantes, cada um recebia o enunciado da prova (e fica com ele). Mas a folha de resposta mudou: deixou de ser a tal folha A3 dobrada com as folhas laranjas ou castanhas e passou a ser um outro caderno, com 8 ou 16 páginas, consoante a quantidade de páginas que se esperava que o aluno utilizasse, e no qual o aluno escreve todas as respostas. Note-se que as folhas se soltavam com alguma facilidade.

Se um dos objectivos era poupar papel, acontece precisamente o contrário: ainda se gasta mais papel.

E como é o caderno de respostas?

A primeira página é reservada para a identificação do aluno e da escola, da disciplina, da versão (se fosse o caso), e... para o célebre QR Code, que toda a gente ninguém agrafava.

A segunda página é propositadamente inutilizada, para se poder separar o picotado da primeira página.

A terceira página serve para o aluno indicar as respostas a todas as perguntas de escolha múltipla ou associação. Aí, o aluno tem de pintar umas bolinhas que correspondem às opções que pretende assinalar. Da observação que fiz, o tempo médio gasto a pintar cada bolinha é de 7 segundos, bem superior a escrever "3. C" na folha. Mas pronto.

Da quarta página em diante, cada examinando só pode responder a uma pergunta por página. Ou seja: na quarta página só pode responder à pergunta 5, na quinta só pode responder à pergunta 8, etc. Os alunos estavam bem avisados de que qualquer resposta fora da página que lhe estava destinada seria classificada com zero pontos, mesmo que estivesse totalmente correcta.

O problema não era esse. Então como é se um aluno precisar de mais de uma página para responder a uma pergunta? Como o número total de folhas do caderno de resposta excedia sempre o número de perguntas que exigia construção de resposta por parte do examinando, as últimas folhas, designadas "folhas de continuação", serviam para conter as respostas que não coubessem numa só folha. Aí, o examinando teria de pintar mais duas bolinhas, uma correspondente ao número do exercício, e o outro correspondente ao número de ordem de páginas necessárias para responder ao exercício (por exemplo, se estivesse na segunda página daquele exercício em concreto, teria de pintar a bolinha com o número 2).

Para os alunos, as mudanças foram estas. Para os professores classificadores, as mudanças foram outras.

Os professores deixaram de ir levantar os exames fisicamente ao Agrupamento Regional de exames e deixaram de os classificar na totalidade. Cada professor classifica apenas um ou dois exercícios, mas de muitos exames diferentes. Sem dúvida que este processo traz várias vantagens:

- estando tudo informatizado, evitam-se deslocações;

- não é preciso estar a assinalar erros nos exames nem a trancar linhas;

- as notas são calculadas automaticamente;

- uma vez que não se vê os exames na totalidade, o classificador não fica ali a ver se tem pena do aluno ou não e classifica as respostas rigorosamente de acordo com os critérios de avaliação;

- a própria quantidade total de trabalho diminui.

Como se processa isto? O professor recebe na sua área de trabalho as folhas digitalizadas, cada uma com um código, e a partir daí começa a classificar. E só tem de classificar as respostas que exigiram construção por parte do aluno, uma vez que a tal página 3, a das bolinhas, é classificada automaticamente "por uma máquina".

Com certeza que com muitos professores e em certas disciplinas tudo correu lindamente e sem problemas. Mas não foi o meu caso.

O exame de Português foi realizado no dia 16 de Junho. No dia 26 de junho (lembram-se, quando se ia buscar os exames fisicamente era no dia seguinte ou dois dias depois!), fui convocado para classificar umas quantas respostas, com prazo de entrega a 6 de Julho. Portanto, metade do prazo já tinha ido à vida. Ainda nesse dia, o prazo foi alargado para dia 10. Só que não me aparecia nenhuma prova para classificar.

No dia 27 (sábado), sim, aí apareceram-me os primeiros exemplares para classificar. Eram poucos, e lá fui eu tranquilo da vidinha classificando-os, primeiro fazendo um rascunho em papel...

A 2 de Julho, todos os exemplares que eu andava a classificar desapareceram e foram substituídos por outros... alguns deles já classificados por outrem. Lá foi Sísifo carregar a pedra. O prazo de classificação foi estendido para dia 14.

A 6 de Julho, lá me apareceram mais exemplares, outros que eu tinha desapareceram e outros ficaram. Mais tarde, os desaparecidos "regressaram".

No dia 7 de Julho recebi mais outros, e no dia 10 mais outros, e dia 11 mais outros. Na verdade, nunca tinha a certeza de quando é que ia ficando concluído.

Como seria de esperar, vários exemplares que recebi continham respostas que ocupavam mais que uma página (e daí a necessidade das tais folhas de continuação). Estive diversas vezes à espera que mas fornecessem, porque as respostas estavam incompletas. Novo problema: como ter a certeza de que uma resposta está incompleta?

Suponhamos que a página está escrita mesmo até ao final da última linha. Como ter a certeza de que a resposta de facto acabou ali e o aluno não quis escrever mais? Como sabemos que uma frase ficou inacabada porque se esgotou o tempo total da prova e o aluno não a conseguiu terminar? Como saber que o aluno continuou a resposta, mas fê-lo na folha errada, e, por isso, só se podia classificar o que estava estava dentro da página certa?

Graças a Deus que não me aconteceu, como aconteceu a outros, receber a primeira página de um exemplar x e a segunda página pertencer a um exemplar y. Ou só receber a segunda página e não receber a primeira.

No dia 13 dei tudo por concluído e não recebi mais nada.

Agora REZEM para que esteja tudo como deve ser, incluindo as respostas das bolinhas. Porque se tiver havido também problemas com essas (e à partida não houve) então está mesmo tudo de pernas para o ar.

No questionário que foi pedido aos classificadores, nas observações, queixei-me de que quem organizou e executou o processo tem mais semelhanças comigo de que com a minha esposa, porque se fosse ela a organizar, sairia tudo perfeitinho. E sugeri que futuramente os alunos dêem as respostas como concluídas desenhando um quadradinho e preenchendo-o. Um assim ▖como fazem nas revistas para assinalar a conclusão de um artigo.


Para fechar, o lado preocupante do conteúdo das próprias respostas. Em parênteses rectos estará a resposta adequada ao contexto específico.

"opnião"

"há altura de (...)"

"ao em vez de" ["em vez de" / "ao invés de"]

"crer demonstrar"  ["querer demonstrar"]

"ouvecem" ["houvesse"]

"modernises"

"seriam crianças mais felizes, mais tristes, menos viciadas"

"hulmide"

"pouquicimos"

"submitidas"

"à alguns anos"

"à espera que (...) regressa-se a casa"

"o acento do brinquedo" ["o assento do brinquedo"]

"desmantela-do"

"infança"

""

"e nem se quer pode" ["e nem sequer pode"]

"e deixar elas crescerem á vontade"

"e deixar elas serem crianças"

"progredimentos" ["progressos"]

"hojem dia"

"tem haver com"

"estéricas" ["histéricas"]

"diferênça"

"como se (...) não fica-se"

"asseadade" ["asseio"]

"barolho"

"oufativos" ["olfactivos"]

"persetível"

"estam" ["estão"]

"propicionava" ["propiciava"]

"deambola"

"permane-se"

"enterrompido"

"ensordecedor"

"de vez enquanto" ["de vez em quando"]

"à acontecer" ["a acontecer"]

"eufoziva" ["efusiva"]

"barrulhento"

"interpolavam" ["interpelavam"]

"persepcionado"

"oufato"

"subresair"

"assedeadas" ["asseadas"]

"começemos"

"levanos" ["leva-nos"]

"ao imaginar-mos os acessórios"

"sentir-lo"

"quotiana" ["quotidiana"]

"tinlitavam"

"extridentes"