segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Eleições legislativas 2015

Muito há para dizer sobre as eleições legislativas de ontem.

Ganhou a coligação PAF, o que pelos vistos chocou muita gente nas redes sociais, pois durante estes 4 anos muitos foram os protestos contra o governo em praticamente todas as áreas.
Assumamos que dos 9.439.161 inscritos para votar, 7.368.275 estavam claramente descontentes com o governo e queriam que ele caísse.
Pois estes 7.368.275 eleitores ou se abstiveram, ou votaram branco ou nulo ou distribuíram os seus votos por mais de uma dúzia de partidos. Os restantes 2.070.886 chegaram para ganhar as eleições.
Todos sabem que pelo menos 60% dos votantes no PSD, PS, PCP e CDS são "adeptos" do seu partido, ou seja, votam sempre nele seja qual for o contexto. E pelo que me é dado a entender, o PSD é quem tem mais adeptos que nunca mudam de partido.
Depois há aqueles que votam no PS só para o PSD não ganhar, e que anos mais tarde votam no PSD só para o PS não ganhar, daí que durante as décadas não se prevê que o paradigma mude.

Mas o queria desenvolver aqui é a minha teoria de que as eleições legislativas em Portugal, contrariamente às presidenciais e às europeias, são uma batota.

1. Círculos eleitorais

Os círculos eleitorais são um completamento enviesamento dos resultados apurados nas urnas.
Os votos no PSD, CDS, PS, BE e CDU corresponderam a 92,85% do total de votos válidos. Contudo, estes partidos ocuparão mais de 99% dos lugares na Assembleia da República. E isto porquê?
Porque de facto não se está a votar para um Parlamento, mas para 22 pseudo-parlamentinhos que não representam o todo e que privilegiam partidos com grande base local (por exemplo, a CDU no Alentejo). Portanto, os votos não são todos iguais. Custa muito fazer um único círculo eleitoral como nas eleições europeias?
Passemos a um caso prático: o PSD nos Açores e na Madeira concorreu separado do CDS (outro assunto a desenvolver adiante). Os 81054 votos que aí obteve chegaram bem para eleger 5 deputados; por outro lado, a diferença no país todo entre o BE e a CDU foi de cerca de 105 mil votos e apenas 2 deputados. O PAN com "o Estádio da Luz cheio" viu-se à rasca para eleger um. E o que dizer do PDR e do PCTP/MRPP, que com 60 mil votos cada um não elegeram nenhum? Isto é justo?

2. Os boletins de voto não são todos iguais

Que sistema é este que não põe os portugueses a votar todos por igual? Que impede que possa votar em certo partido só porque não estou no círculo eleitoral onde ele concorre!
E o que dizer dos partidos que nuns sítios concorrem juntos, e noutros separados? Portugal é diferente nesses sítios? Em Lisboa somos todos amigos mas nas Regiões Autónomas é cada um por si. O Parlamento não é o mesmo?

3. Aniquilamento dos "pequenos" partidos

Como já foi descrito no ponto 1, o sistema dificulta a vida aos designados "pequenos" partidos, que têm de conquistar os seus lugares na Assembleia da República a pulso. Por isso dou os meus parabéns ao PAN (de quem não tenho grande simpatia) e seguramente que para eles será mais fácil doravante eleger mais deputados, porque deixarão de ser falados apenas quando há eleições e defendem e promovem a única causa que verdadeiramente comove as pessoas, que é a elevação do cão a animal sagrado (como as vacas na Índia).
Os pequenos partidos ganharam mais de 120 mil votos em relação a 2011, e têm sido ignorados pelos meios de comunicação social quando fazem conjecturas sobre quem "roubou" os votos a quem. Vejam lá os números, se fazem favor.
E lá atrás dizia que eles têm de subir a pulso porque nunca têm oportunidade de esgrimir argumentos contra os grandes partidos.
Com a disseminação de meios de comunicação social que existem, seria interessante criar uma regra na qual todos os partidos estivessem presentes em apenas 3 debates individuais, com adversário definido por sorteio. A título pessoal, teria sido muito mais estimulante assistir aos seguintes debates do que àqueles a que estamos habituados:

Passos Coelho vs. líder do PAN
António Costa vs. Marinho e Pinto
Paulo Portas vs. líder do PNR
Catarina Martins vs. Rui Tavares
Jerónimo de Sousa vs. Garcia Pereira

E assim se veria até que ponto os pequenos partidos conseguiriam defrontar os grandes (uma Taça de Portugal aplicada à política, em vez da Liga dos Campeões) e criar um efeito-surpresa.

Agora é tempo de ouvir a mesma lengalenga de sempre: a "estabilidade", o "consenso", e outros termos tão caros ao politiques de que agora não me lembro...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um benfiquista no estádio Alvalade XXI

Tive sorte num sorteio e ganhei bilhetes para ver o Sporting - Benfica.
Já não ia àquele estádio desde 2010, portanto era quase como se fosse a primeira vez.
Espantou-me a falta de informação sobre a numeração das bancadas, o que nos levou a perguntar várias vezes aos assistentes onde era o sector que nos estava alocado.
Depois, veio a homenagem aos campeões nacionais de 1981/82, nos quais se destacava Manuel Fernandes, que tinha marcado 4 golos ao Benfica nos 7:1. O problema é que quem desconhece a história do futebol e assistiu à cena ficou a pensar que foi nesse ano que o Sporting ganhou 7:1 ao Benfica.
Novo momento digno de registo: a apresentação das equipas. Foi apresentada em primeiro lugar a equipa do Sporting e depois a equipa de arbitragem. E pensava eu "olha, eu estava convencido que na apresentação das equipas começavam sempre pelos forasteiros". E a apresentação ficou por ali. Fiquei apreensivo, porque afinal o Sporting ia jogar sozinho.
Chegava o momento da coreografia: todo o estádio com os cartões verdes e brancos no ar! Um verdadeiro festival aéreo, tal foi a quantidade de aviões de papel que voaram (e alguns durante muitos segundos - há que felicitar os lançadores por isso) dentro do estádio ao longo das mais de duas horas em que lá estive.
Chegou a primeira parte, na qual o Sporting, mesmo a jogar sozinho, não conseguiu marcar um golo que fosse. Ao intervalo, "Sporting 0:0 Visitante". Ai afinal o Sporting tinha um adversário e chamava-se "Visitante"? Quem é que são esses? Ainda por cima a jogarem com equipamento igual ao Benfica?
Eis o momento do sorteio da "Final Four" da Taça de futsal da UEFA. A dada altura, o locutor pede palmas para a UEFA (se o Sporting perder com o Barcelona quero ver se pedem a repetição do jogo).
Na segunda parte fiquei a saber quem eram alguns dos jogadores do Visitante, pelos cartões amarelos que viram e por saírem ou entrarem nas substituições. Questionei-me se em vez de nomes como "Maxi Pereira", "Samaris" ou "Talisca" não deveriam ter sido referidos como "indivíduo 14", "indivíduo 7" e "indivíduo 30".
A dada altura na segunda parte, eis que cai uma tocha verde junto ao guarda-redes do Visitante. Ora bolas, lá ia o Benfica ser multado pela Liga, porque quando os adeptos do Sporting provocam distúrbios quem paga as multas é o Benfica.
Golo do Sporting! Finalmente conseguiam derrotar o Visitante, que jogava com 9 jogadores desde o apito inicial, pois os dois que jogavam do lado esquerdo eram peças decorativas e a equipa no seu todo não fazia uma jogada como deve ser.
Contra todas as expectativas, o Visitante empata quase no fim, com um golo do indivíduo 33, denominado Jardel. E eu pensava que esse já não jogava.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Tête de la course

Tête de la course: uma das primeiras expressões que aprendi em francês, talvez até a primeira, ainda bem antes de ter Francês na escola e fruto do meu constante e apaixonado acompanhamento da Volta à França em ciclismo.
O leitor mais velho talvez se lembre de que quando via imagens de eventos desportivos no estrangeiro as indicações apareciam sempre na língua em original: na fórmula 1, por exemplo, no GP de Itália aparecia "5 giri al termine", no ténis era "Avantage [jogador]" e "Égalité" em Roland Garros, nos jogos da selecção nacional as informações também eram sempre dadas na língua do país onde se disputava o jogo.
Mas no ciclismo esta "tradição" foi permanecendo até à segunda década do século XXI. O seguidor do ciclismo habituou-se a ver expressões - todas com o mesmo significado - como tête de la course, testa di corsa, cabeza di carrera, kop van de wedstrijd, lasterketa burua, spitze ou, com a Volta à Polónia, ucieczka.
A pressão da globalização leva a que o esmagador inglês se imponha em todos os contextos e limite a diversidade linguística. Infelizmente...

segunda-feira, 17 de março de 2014

Crimeia

Pela primeira vez, que me lembre, estamos a assistir à submissão de um povo de um país a outro estado... por dinheiro - ou melhor, pela expectativa de passar a ter mais dinheiro.
É evidente que a Crimeia não pode passar para a Rússia por dá cá aquela palha, com um referendo feito em cima do joelho e com uma intenção tendenciosa.

Agora vejamos: toda a comunidade internacional condena o que se passa na Ucrânia, mas quando foi no caso do Kosovo uma série de países da União Europeia e os Estados Unidos correram a reconhecer a independência desta quase nação.

O que a Rússia faz na Crimeia é o mesmo que se passa na Ossétia do Sul, um estado de facto dentro da Geórgia cujo "sonho" é ser russo.
E estamos para ver como será na Abkhazia, na Transnístria... E se fossem o País Basco ou a Catalunha? Já achavam piada às declarações unilaterais de independência?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Portugal e os Jogos Olímpicos de Inverno

Começam hoje na estância balnear (!) russa de Soči os Jogos Olímpicos de Inverno.
Portugal estará representado por dois atletas, os luso-descendentes Camille Dias e Arthur Hanse; a primeira não fala português, o segundo não sei. Ambos participarão no esqui alpino.

Estará Portugal condenado a ser uma eterna nulidade nos Jogos Olímpicos de Inverno? Eu creio que não, porque em teoria há uma série de modalidades nas quais Portugal poderia um dia obter classificações de destaque.
Quando pensamos em desportos de inverno, os países que nos vêm à cabeça são estes: Alemanha, Rússia, Canadá, Estados Unidos, Noruega, Suécia, Finlândia, Suíça, Áustria e Itália e França. Em todos estes países, como se sabe cai muita neve. E se formos aos desportos de inverno que se disputam na neve, estes países ainda se destacam mais. Portanto, não é crível que surjam resultados de relevo em desportos como o esqui alpino, o snowboard, o esqui de fundo, o combinado nórdico e o biatlo.
Mas há desportos no gelo e há desportos em que o factor neve não é tão decisivo.
Nos saltos de esqui a perícia está no salto em si, e não no facto de se saber pôr os esquis na neve. Eles nem andam...
O gelo é muito mais fácil de arranjar que a neve. Ciclicamente surgem notícias sobre pistas de gelo um pouco por todo o país, para pura recreação. Mas daí podem surgir patinadores de velocidade e patinagem artística (já os há, mas sem gelo) ou equipas de curling. Hóquei no gelo já tenho mais dúvidas, mas como parece que há gente que gosta mais da NHL do que de hóquei em patins...
O que disse sobre os saltos de esqui também se aplica ao skeleton, ao luge e ao bobsleigh: dependem mais da perícia do atleta (ou da equipa) do que do facto de ser no gelo.

Vamos ver o que acontece. Às vezes surgem fenómenos...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Palermices dos últimos cinco anos

Certamente o leitor já deu conta de certas modas, umas mais passageiras que outras, que só tornaram ridículos todos aqueles que delas fizeram uso, nomeadamente nos últimos 5 anos. Entre elas nomeio:

I. A alteração dos títulos dos transportes públicos em Lisboa e arredores, o que se constitui um caos para quem viajar nos transportes públicos de Lisboa para quem só lá vai muito espaçadamente. É fazer o cartão x, carregar com uma dada quantia de dinheiro e depois disso tudo ainda perder o transporte. Dali a uns tempos, fazer tudo de novo.

II. Chamar bullying ao que é bullying e ao que não é bullying.

III. Cantoras fizerem videoclips todas nuas.

IV. Reproduzir na realidade isto.

V. Achar piada a concorrentes de reality shows.

VI. O uso da expressão "não me assiste".

VII. O uso da expressão "sair da zona de conforto".

VIII. Partilhar no facebook coisas que não interessam a ninguém.

IX. A profusão de comentadores políticos, desportivos, económicos, etc.

X. A bola bate no braço do defesa. Quanto mais perto da baliza for, maior é a probabilidade de ser assinalado penalty.
O jogador entra na área, desequilibra-se e cai. O árbitro mostra-lhe o cartão amarelo porque de cada vez que um jogador cai na área ou é penalty ou é simulação.

XI. Bonecos horrorosos (vulgarmente conhecidos como memes) que instigam as pessoas a serem mal-educadas.

XII. Uma tara qualquer pelo actor Chuck Norris.

XIII. Reportagens sobre pessoas que ficaram desempregadas e passaram a cavar a terra ou a costurar e dão a entender que vivem numa boa. "Venceram" a crise, enquanto todos os outros que não fazem o mesmo continuam a ser uns inúteis.

XIV. Ter preocupação e orgulho em aplicar o Acordo Ortográfico de 1990.

XV. Passar por situações do género "a montanha pariu um rato" e afirmar depois "EU SOBREVIVI".

XVI. Calças muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito descaídas.

XVII. Crateras nas orelhas.

XVIII. Achar que não faz sentido festejar qualquer conquista (sobretudo desportiva), aplicando o argumento "O povo quer é isto e devia era preocupar-se com a crise".

XIX. Tipo.

XX. Ask.fm

XXI: "Calme" e "pere".

XXII: Músicas que só são famosas por soarem em anúncios de operadoras de telemóveis.


Estou disponível para outros contributos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O lado negro do Ensino Superior

Praxes académicas: finalmente o país todo passou a discutir este assunto, em vez de serem só os intervenientes nesses rituais satânicos.
Pelo que me é dado a entender, a população em geral está contra a existência de praxes, pelo que à partida seria fácil acabar com elas.
Mas também me parece que a maior parte da população universitária é favorável. Já deu para perceber que o povo português gosta muito do Carnaval; antigamente só o Carnaval é que era Carnaval, mas agora o Halloween também já serve para Carnaval, o Natal também já tem o seu quê de carnavalesco, a passagem de ano (solar) é Carnaval e agora apareceu outro Carnaval: as Colour Run. Então se tivermos mais uma oportunidade para fazermos figuras que só faríamos nas ocasiões citadas, para quê recusar? O mais curioso é que os estudantes se sujeitam a figuras que nem nas outras datas se sujeitariam a fazer: suponhamos que eram obrigados a transportar uma placa com uma seta apontada ao ânus com a inscrição "ENTRADA LIVRE" em qualquer outro contexto que não o da praxe. O que fariam? Insurgir-se-iam e deixaria de haver desemprego na advocacia. Se a maioria dos estudantes enfrentasse o lado negro das universidades, de certeza que a questão se resolveria rapidamente.
As praxes até teriam a sua piada se envolvessem situações mais rocambolescas. Acho que seria bem interessante ver um grupo de estudantes a passar junto do Ministério das Finanças a berrar "UMA VERGONHA! UMA VERGONHA! SÃO UMA VERGOOOOONHA! VOCÊS SÃO UMA VERGOOOOOONHA", ou a entrarem no metro e a dizerem em uníssono "Tenha a bondade de m'assliare", chegarem ao pé do Estádio José de Alvalade XXI e fingirem que faziam chichi contra a parede, colocarem uma placa à entrada da Assembleia da República com a inscrição "DOMVS MALEFACTORVM"; no Porto fazerem o mesmo no Estádio do Dragão, com a expressão "DOMVS CORRUPTIONIS", ou cantarem "Ehh, sou benfiquista, com muito orgulho, com muito amoooooooor!". E, no país todo, levarem uma máscara de Cavaco Silva com uma bandeira de Portugal de pernas para o ar.